Por Ronaldo Scucato, presidente do Sistema Ocemg
Se, no século passado, a grande transformação do campo veio das máquinas, neste milênio, ela vem do uso intenso de novas tecnologias antes, durante e depois da produção. Vivemos uma nova etapa da inovação, que já redesenha a produção agropecuária nacional. Em 2026, o agronegócio brasileiro projeta destinar entre 10% e 20% do orçamento de TI a iniciativas de inovação, como mostra o levantamento Antes da TI, a Estratégia, do grupo IT Mídia, empresa especializada no setor de tecnologia. Por isso, no mês em que se celebra o Dia Mundial da Agricultura (20/03), é necessário falar sobre a revolução tecnológica do campo, impulsionada pela crescente preocupação do mercado global em relação à sustentabilidade.
A partir de dezembro, se nada mudar, a União Europeia só comprará commodities, como o café e a soja, com certificação de legalidade ambiental, ausência de desmatamento e rastreabilidade de todas as etapas da produção. O Reino Unido avança na mesma direção, com legislação que veda a importação de produtos que impactem negativamente o meio ambiente ou agravem as mudanças climáticas. E é diante desse cenário que as ferramentas digitais ganham protagonismo. Elas ampliam a rastreabilidade, apoiam o manejo mais preciso do solo, permitem monitorar a qualidade da produção em tempo real e ajudam a conectar produtividade, sustentabilidade e valor de mercado.
No café, um dos motores do agronegócio mineiro, responsável por 57,2% da receita de exportação do setor no Estado, essa transformação fica especialmente evidente nas cooperativas cafeeiras, que produzem mais da metade dos grãos em Minas Gerais e estiveram entre as pioneiras nas práticas de agricultura regenerativa e na inserção da agenda de carbono no setor.
Foi no café cooperativista mineiro que a agricultura regenerativa –– modelo baseado em práticas que restauram o solo, preservam recursos naturais e aumentam a resiliência –– encontrou uma de suas portas de entrada no Brasil. A aposta nessa agenda trouxe soluções capazes de recuperar a fertilidade do solo em profundidade, ampliar a retenção de água e tornar os cafezais mais resilientes à seca, como no caso do uso do biochar. E essa transformação não se limita ao solo. Fato é que novos processos transformaram para melhor o manejo da lavoura.
Apesar das constantes inovações no campo, há algo que permanece. A agricultura continua sendo, antes de tudo, uma atividade humana. A tecnologia acelera análises, permite cruzar dados e reduzir subjetividades em etapas como classificação, triagem e monitoramento, mas jamais atuará sem a experiência de quem conhece a terra, observa a planta, entende o tempo e decide a hora certa de agir. No agro, a mão e o olhar do agricultor sempre farão diferença. Por isso, cada avanço deve ser entendido como aliado, e não como substituto do conhecimento e da técnica de quem vive a agricultura todos os dias.
Como reconhece a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a supervisão humana segue indispensável para definir critérios, avaliar dados, interpretar resultados e garantir o controle de qualidade. Na nova era digital, sem gente preparada e base organizada, não há tecnologia que gere transformação consistente.
*entidade de representação do cooperativismo em Minas Gerais

